terça-feira, 12 de maio de 2009

“Isso não aconteceu aqui em Mogi. Essa banda não existe!”

O post é grande. Mas vale muito, muito, muito à pena. É mais uma colaboração do nosso amigo Boê, do Seamus. O texto se trata do segundo capítulo do TCC dele, que foi um livro-reportagem sobre nada mais nada menos do que a banda La Carne. "Desconhece o Rumo, Mas Se Vai"

Vou copiar o que dizia o e-mail do Boê para mim: "Lembrei hoje que o segundo capítulo é todo dedicado ao show do La Carne no Lounge Beer em 2005, que foi do caralho. E que, no mesmo evento, foi o último show do Agentes. E teve Margaritas Ante-Porcus. E Forte Apache. E foi emblemático pra caralho. E foi por onde eu comecei meu TCC, na verdade. Tracei meus primeiros rabiscos naquele dia, sentado na praça de alimentação do shopping daí de Mogi."

E digo: é um texto foda. Reserve uns minutos para ler e reler.

Abraços!

*****

Dezessete de dezembro de 2005. O Lounge Beer, em Mogi das Cruzes, recebia seu último show naquele ano – e um dos últimos de sua existência. A cidade é saudada como um dos melhores lugares para uma banda do underground tocar no Estado de São Paulo. Lá existe um público altamente receptivo e caloroso, que frequenta os eventos exclusivamente pelas bandas; quando não as conhece, observa-as atentamente desde o momento em que empunham os instrumentos, colando no palco assim que os primeiros acordes surgem dos amplificadores.

Até 2004, a mística da cidade se fazia realidade nos shows na Chopperia Camelot, casa que ficava quase nos fundos do Hipermercado D'Avó. A opulência do hipermercado contrastava com o acanhado bar que, apesar de pequeno e do visual bem cuidado e discreto, comportava shows absolutamente lotados, em que o público quase sempre invadia o espaço reservado à banda [havia um tablado de 10 centímetros de altura como “palco”], às vezes até mesmo fazendo intervenções pertinentes, como recuperar palhetas que teimavam em cair das mãos de guitarristas e baixistas ou ajeitar pedestais de microfone. O clima intimista, somado ao calor dos mogianos, faz com que não raro se ouça de músicos que guardam com muito carinho as memórias “do show de Mogi, no Camelot”.

O caminho para o Lounge Beer, para quem desce na rodoviária, passa pela rua onde ficava a Chopperia Camelot. Em 2005, funciona no mesmo lugar o Vila Madalena, nome sintomático para um bar voltado à classe média. No som ambiente, MPB tradicional repetida a noite inteira. Mesas residem onde antes havia o tablado. Um espaço, agora, sem absolutamente nada de especial, natimorto pela insipidez de qualquer bar que se proponha ao velho esquema banquinho-e-violão. Mesmo assim, ao olhar para dentro do local, ainda é possível ouvir imaginariamente o barulho daquelas bandas tocando, sentir o calor saindo bar afora.

Dois quarteirões acima está o Lounge Beer. A fachada envidraçada faz com que quem está dentro consiga observar todo o movimento na entrada. Mais espaçoso que o Camelot, o Lounge possuía um palco bastante diferente do usual: a banda ficava disposta em linha, com a bateria num canto e os outros integrantes perfilados. Bonito para a platéia, mas um terror para os músicos: o guitarrista, que geralmente se instalava no outro canto da parede com um amplificador nas costas e uma caixa de som bem no seu ouvido direito, acabava não ouvindo a bateria em alguns momentos. Para o La Carne, que em dez anos de banda já havia encontrado de tudo em matéria de equipamento de palco, seria apenas um detalhe. Desta vez, ao menos haviam amplificadores bons à disposição – e, como sempre, o empenho do agitador Daniel Alcântara, organizador daquele evento [e da maioria dos shows em Mogi à época], e um dos principais responsáveis pela boa fama da cidade.

Além disso, o Lounge ainda oferecia cerveja boa a R$ 3,50 a garrafa; um preço humano, levando-se em conta que a maioria das casas de shows costumava vender latinhas e long necks por um preço igual ou ainda maior. Obviamente, isso muitas vezes acabava por animar demais os shows, mas havia muito tempo que uma briga não acontecia. Pelo contrário: as rodas de pogo que se abriam no público [herança direta dos shows punks] paravam de dançar até se a lente do óculos de um desajeitado míope caísse no chão da casa. E, naquela noite, aquele pedaço de acrílico voltaria intacto para o seu local de origem: a armação dos meus óculos. Era a velha camaradagem mogiana em ação.

As pouco mais de oitenta pessoas que compareceram àquela noite tentavam encher com seu entusiasmo todo o espaço vazio da casa. Logo após o início da primeira apresentação da noite, Margaritas Ante-Porcus, a chuva resolveu dar seu ar da graça na noite de Mogi, o que explica em parte o minguado público do show.

– Se tem que ficar explicando o que está fazendo, então é porque não está fazendo bem feito – solta um irônico Sidney Júnior, baterista do La Carne desde 2003, contrariado pelo discurso momentâneo do vocalista do Margaritas. O são-paulino Sidney estava visivelmente eufórico aquela noite, tanto pela expectativa do show quanto pela final do Mundial Interclubes que aconteceria na manhã daquele domingo, que seria entre seu clube do coração e o Liverpool, da Inglaterra.

A segunda banda a subir no palco, a mogiana Agentes, faria, sem saber, seu último show. Perderia no mês seguinte o baterista Fábio Uehara que, a exemplo de muitos descendentes de japoneses que nasceram na cidade, iria tentar a sorte do outro lado do mundo como dekassegui. Ao fim do show, uma mão me toca o braço e aponta o amplificador de guitarra no palco.

– Você sabia que esses amplificadores Marshall JCM 900 foram criados nos anos 80 e têm mais agudos e graves? Eu tive um 800, que tem um timbre mais rico em médios, mas era muito grande e não dava pra ficar carregando pra lá e pra cá...

Jorge é o mais quieto dos quatro, mas à medida que seu inseparável cantil esvazia, começa a puxar conversa. Em todos os ensaios, ele cuidadosamente separa um banco de madeira onde deixa uma pequena garrafa com whisky [“nacional, porque o importado é muito caro e eu raramente tenho grana pra isso”] e um copo, do qual vai bebericando durante as músicas. E ele, o cantil, estava cheio de Passport naquela noite. Talvez não tão cheio àquela altura...

Enquanto o Forte Apache, penúltima banda da noite, parecia querer demolir o bar com golpes maciços de guitarra, Sidney, Carlos e Jorge preparavam o equipamento para o show. Entravam e saíam do camarim no segundo andar, cuja janela dava para uma vista privilegiada da madrugada em Mogi, agora já sem chuva.

Descendo pela escada e passando entre os poucos que sobreviveram até aquela hora da noite para ouvir [mais] uma banda, era possível sentir o calor diferente do lugar. O La Carne sobe ao palco para montar seu equipamento, como sempre, sem nenhum traço de pompa. Jorge, sempre com uma expressão serena no rosto, calmamente pluga a guitarra e logo puxa uma frase improvisada, que é imediatamente capturada no ar pelo baixo de Carlos e a bateria de Sidney. Todos os presentes correm para a beira do palco. O show já começou.

Linari, usando uma camiseta da seleção de futebol da Bolívia, não demora muito para se juntar à sessão de improviso. O sorriso mezzo maquiavélico mezzo malandro, enquanto segura o microfone com o pedestal inclinado, é a sua marca registrada. Encara o público como se analisasse um a um os presentes. Depois, anuncia:

– Boa noite, nós somos o La Carne. Satisfação! – e, já com o ataque de Jorge nas seis cordas ecoando bar afora, anuncia – Esta música se chama “Demônio Triste”.

Demônio Triste” e seu rítmo funkeado põe até o mais quieto dos presentes a dançar as histórias da periferia da Grande São Paulo, que Linari destila e encarna no visual e no jeito de cantar.

“Como vai, demônio triste?
Quer saber onde vai chegar?
Por enquanto eu tô tranquilo
Ainda bobo da corte [...]
Cotovelo no balcão
Uma pá de bituca no chão
Eu continuo sem saber se rezo ou saio sem pagar”

A iluminação vermelha ajuda a compor um cenário tórrido com a música, que faz parecer com que até as paredes estivessem suando. Não são mais do que quarenta ou cinquenta pessoas naquele instante em frente ao palco, mas todos ali dançavam – num êxtase que poucas bandas do underground conseguem causar sem usar truques fáceis.

Quase emendada, surge “Quem Aqui [Desgraça]”. Uma música com um inegável apelo pop e cuja melodia justifica a mais grossa das comparações ao grupo: um Ira! melhorado. É um dos “hits” do La Carne, e é cantada [ou melhor, berrada] por muitos na beira do palco, que se identificam como os “artistas pobres” que a letra homenageia e que nunca acharam respostas para as perguntas que ela faz.

“Quem aqui pode me dizer o quanto se morre pra poder viver?
Pensa que você pode ver quanta mentira consegue te convencer? [...]
Quem aqui que pode se lembrar da última vez que teve medo de chorar?
Quem sabe como é que se faz pra uma vontade se curvar?”

Os versos de Linari tornam-se, sem querer, um grito de guerra de todas as almas que ali o entoavam: adolescentes procurando o significado da vida às 4h da manhã num show de rock; músicos das outras bandas; gente que se sente acuada pelo mundo em que vive e que espera a primeira oportunidade para o revide. Os mesmos que evocam o ritmo da música seguinte, de título sintomático: “Desconhece O Rumo, Mas Se Vai

O erro de português no título não é proposital, e exatamente por isso faz com que a música pareça ainda mais convincente. Os primeiros acordes de Jorge incendeiam o ambiente, as palmas crescem e marcam o ritmo e, à primeira rufada da bateria, a sensação é de redenção. O que vem a seguir é seguido por êxtase e um quase descontrole, com copos de cerveja voando no palco, gente dançando como se aquele fosse o evento de suas vidas. Mas era só mais um show de rock, no qual elas estavam expondo suas almas. Um dos poucos shows em que conseguiam a bênção da entrega de uma banda que toca com o coração. Ali, tão perto, o suor dos músicos no pequeno palco se confundindo com a platéia. Todos eles se vendo retratados como os “vira-latas” na letra daquela canção.

“Desconhece o rumo, mas se vai
Não importa o medo que isso traz
Deixa acontecer

Não me adoeça das mentiras de da cobiça
e do veneno que escorre da boca das víboras
Não me adoeça da competição escrota,
da compaixão e da caridade burguesa
A lógica do cash...

Vira-latas peregrinos
As bocas abertas, as línguas pingantes na estrada
Vira-latas sem destino
perambulando entre armadilhas dessa capital do capital”

Apesar de a figura de Linari comandar as atenções no palco – gordo, cabelos compridos e barbudo, com um alcance vocal altíssimo e o seu olhar intimidador – o guitarrista Jorge, por sua vez, é quem dá o tom definitivo. Jorge é o anti-guitar hero por excelência. Toca parado, sério, quase tímido, mas é só despejar seus acordes que chama a atenção com seu estilo marcante, pesado, mas sem qualquer efeito de distorção. Uma pegada rascante, como uma viola furiosa e eletrificada. Há um quê folk combinado a um balanço sangrento, com o qual ele é capaz de fazer guitarristas na platéia pensar em aposentadoria sem tocar um único solo. Combinado ao baixo ribombante de Carlinhos e o timming da batida de Sidney, ao vivo o La Carne causa comoção pelos palcos onde passa. É capaz de “tirar as muletas de um aleijado”, como definiu o jornalista Leonardo Vinhas sobre um show em São Paulo. Uma apresentação cuja atmosfera é capaz de comover o mais cético dos críticos musicais.

Dez músicas depois, com um megafone nas mãos, o vocalista do Agentes, Jefferson Martins, sobe ao palco ainda em meio aos urros da platéia e à discotecagem que começava a ecoar das caixas de som, e anuncia o fim do show:

– Isso não aconteceu aqui em Mogi. Essa banda não existe!

As pouco mais de cinquenta pessoas que resistiram ao cansaço e ao álcool saíam sorrindo satisfeitas daquela celebração. Elas que, à parte de todos os modismos, de todas as trapaças midiáticas, tinham todos os sonhos do mundo. E que ainda acreditavam na música pelo simples prazer de fazer música em meio a toda essa contradição. E dessa gente se compunha o tal “underground do underground” dos formadores de opinião¹.

***

Às seis da manhã, enquanto aquela manhã chuvosa começava a nascer em Mogi das Cruzes, as pessoas esperando o primeiro ônibus para suas casas, o São Paulo Futebol Clube prestes a derrotar o time da cidade da maior banda de rock de todos os tempos; bravos sobreviventes daquela madrugada se regojizavam sobre aquela noite. Ainda tinham energia para conversar sobre bandas, shows, e sobre como Mogi das Cruzes trazia sempre os melhores “rolês”. Eu, esgotado, apenas olhava o horizonte, sonhando acordado com uma cama ou mesmo o banco do ônibus, quando alguém me cutuca. Era Carol Doro, ativista do grupo de cultura marginal Sinfonia de Cães e baixista da banda paulistana Popstars Acid Killers. Como nós, ela esperava a condução de volta pra casa depois daquela madrugada. Quase inconformada, ela pergunta:

– Meu, você não se impressiona com esses caras?
– Quê caras? - eu indago, surpreso.
La Carne, meu! Eles “chutam” muito!


¹ Referência ao capítulo 1, que não incluo aqui porque não vem ao caso. =)

6 comentários:

Thania disse...

ahahahaha!!! La Carne é maravilhoso!!! Mandou bala no texto Bôe! ;)

Regis Vernissage disse...

simplesmente genial!!
vai escrever bem assim lá em mogi, cara... rs

lembro nitidamente deste show, até do flyer... na época não pude ir e lembro ter ficado puto, muito...

saudações portanto ao dear bôe por me teletransportar no tempo e fazer-me acreditar que lá estivesse...
=)

guimotoco disse...

Aeeee boeeee!!!!
manda mais texto pra nóis, pobres mogianos ;P

André disse...

Sensacional !!!!

Hugo disse...

Esse texte realmente é demais me fez lembrar exatamente os tempos de Lounge Beer, e como o Régis disse "teletransportar no tempo e fazer-me acreditar que lá estivesse...". Lembro me que no dia seguinte tocamos no lounge beer,o São Paulo já havia sido campeão e quase todos da banda uniformizados haha. Me lembro tambem de quando plugueio cabo da guitarra no JCM900 a sensação de arrepio que me deu, na epóca apenas um muleke começando a tocar.

Revenge Life disse...

Para quem gosta de relembrar segue aqui o flyer do show.

http://www.fotolog.com.br/poranduba/12744123