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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

2° FESTIVAL DA MONTANHA

Edição 2010 promete fazer história oferecendo ótimas bandas de graça em Santo Antônio do Pinhal

Por Fernando Lalli

Em meio a tantos festivais com bandas bacanas no segundo semestre de 2010, há um festival gratuito, com bandas independentes, numa simpática praça de paisagismo japonês no centro de uma cidadezinha incrustada na porção paulista da Serra da Mantiqueira. Um festival que, apesar de não ser organizado por nenhuma grande produtora, é o melhor e mais importante evento do ano para a música alternativa de todo o Vale do Paraíba. E que ainda conquista corações por aquele conceito tão vago chamado “VIBE”.

O Festival da Montanha acontece em sua segunda edição na bela Santo Antônio do Pinhal; cidade que fica bem ao lado de Campos do Jordão, a cerca de 170 km da capital São Paulo. Misturando uma boa dose de bucolismo ao clima “europeu” da região, Santo Antônio é um dos melhores refúgios de quem gosta de curtir o inverno sem necessariamente aderir ao burburinho que toma conta da sua vizinha mais famosa.

Cabana Café (myspace.com/cabanacafe7)

Um lugar calmo e acolhedor, que em 2009, nos dois dias da primeira edição do Festival, foi invadido por uma horda de guitarras de vários pontos do Estado de São Paulo: da capital [Holger, Ecos Falsos e Gigante Animal], Taubaté [The Vain, Cabana Café, Seamus e Moviola], Mogi das Cruzes [Hierofante Púrpura], Osasco [La Carne], Ribeirão Preto [Pale Sunday] e, na after-party de sábado, os “estrangeiros” goianos do Black Drawing Chalks, que desde então viraram a bola-da-vez no rock alternativo nacional. [Seriam as boas energias da montanha a guiá-los?]. Sem contar a participação inusitada do senador Eduardo Suplicy, que, estando na cidade a passeio, resolveu subir ao palco no final do segundo dia para cantar Racionais MCs, devidamente escudado por membros de várias bandas. 

“Aquele foi só um evento teste, pra ver se realmente rolava um festival desse nível numa praça em Santo Antônio, sem cobrar entrada”, surpreende o baixista da banda The Vain, Julio Emiliano, um dos organizadores do Festival. “Agora, este é pra valer”, ele diz, enquanto me aponta o line-up de 2010, com características e qualidade bem parecidas com o do “evento teste”, e certamente ainda melhor.

Distribuídos pelos dois dias de evento, há desde o folk-pop dos americanos do The Blank Tapes [NYC, que emplacaram música no comercial dos bombons Sonho de Valsa] até o instrumental experimental do Aeromoças e Tenistas Russas [São Carlos]; passando pelo shoegazer da ótima dupla The Soundscapes, pelo lirismo pós-punk da elogiada aventura solo de Jair Naves [ex-vocalista do Ludovic] e a batida disco-punk dos sorocabanos do The Name, indicados ao VMB 2010.

Além desses nomes, voltam ao evento as distorções 90’s do Seamus, o encontro entre “Pavement + Arnaldo Baptista” cometido pelo Hierofante Púrpura, e os “donos da casa” The Vain e Cabana Café. E, pela primeira vez na Montanha, estarão o indie-rock dançante do Homemade Blockbuster [Curitiba], os instrumentais de Àbrasa [São José dos Campos] e Bas Cobis [SP], a folk-trip solitária do Sin Ayuda [Taubaté], o rock cru do Tokyo Savannah [SP] e o britpop do Bristol [Pindamonhangaba].
Um line-up que, apesar de ter uma espinha dorsal sólida no bom e velho rock and roll, traz uma diversidade de sonoridades bem rara para festivais deste tipo – ainda mais se considerarmos que a região é muito carente em grandes eventos de música que trabalhem com bandas autorais, seja o estilo que for. Imagine só você que meia-dúzia de jovens recém-saídos dos 20 anos estão fazendo aquilo que muitos organizadores de shows tarimbados da região [raríssimas exceções] nem sonham em fazer: dar a cara à tapa por puro amor à música. Nunca é demais lembrar: é tudo de graça na praça. De novo. Jovens amadores na melhor [e original] acepção da palavra.


Tanto pelos shows quanto por esse, digamos, posicionamento político, pode ir na fé: o Festival da Montanha é imperdível. Pode ser que neste ano não esteja tão frio, já que o som vai rolar no primeiro final de semana da primavera, mas nunca subestime a serra: leve sua blusa e seu gorro.

Mas esqueça os protetores de ouvido. Rock se ouve alto

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Apresentando: Topsyturvy

Conhecidas figuras da cena mogiana formam nova banda

Às avessas: Alê, Gummer, Gui e André. Vulgo Topsyturvy

A banda é nova na cena (do Caqui ou do Reino Unido), mas os integrantes e as propostas não. Dos seios de diversas bandas de Mogi, sejam elas falecidas ou bem vivas, como Somata, Motocontínuo, Give Me a Break, Mentecapto, Fellaccios, Noupe e Padovani's Death, nasce a banda Topsyturvy.

Convocado para uma "resenha de leve", vi em minha frente um problemão: analisar uma banda que surgiu de outras que eu tanto admirava e admiro. Mas bora lá.

Os rapazes estão com uma demo lançada já, a enérgica "-1", que conta com três músicas cujos vocais são intercalados pelo Alê (Somata e ex-Mentecapto) e Gui (Padovani's Death, ex-Noupe e ex-Motocontínuo). André (Give me a Break e ex-Mentecapto) e Gummer (ex-Fellaccios) completam o time.

As guitarras rasgantes na primeira faixa, Blunder, se destacam na abertura da demo, com ritmos pra lá de dançantes (dançantes não da disco, ok? Mas, sim, por suas pegadas frenéticas e sem fim). S&M Could Make You Love, música seguinte, se inicia com tambores também rebolantes do Gummer, transformando a faixa em uma mistura de rock'n roll com um samba louco distorcido.

Fechando "-1", Sambö. É muito bom ouví-la pois é a canção que mais remete às antigas bandas do Alê e André e do Gui. Parece um Mentecapto com o vocal gritado e arrastado de Motocontínuo. Claro que há saudosismo de minha parte aí.

Não os vi ao vivo ainda, sei que já tocaram em Pinda num show muito bem elogiado. Mas a estreia caquisense vai acontecer essa semana, lá na Divina Comédia, dia 23, sexta-feira. Quem os acompanha é o praticamente mogiano Seamus, que - espero e rezo - está para lançar o melhor álbum do ano (mesmo demorando três anos para fazê-lo :P): Sonds Of The City You Love.

Nos vemos lá.

Por Zelenski, ao som de Brilliant Lights Brillant Stars.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Vídeos - Próposito Nenhum

É bacana perceber que os, digamos assim, novos estilos que surgem não excluem os já existentes. Eles podem somar ou misturar, virando novas frentes musicais. Mas há os estilos que permanecem puros. Como é o caso do hardcore melódico feito pelo Propósito Nenhum, outrora chamado Ventura.

Certa vez cobri um show deles no Divina, quando ainda eram Ventura, fiquei feliz ao perceber a existência em Mogi de bandas que são fiéis às suas referências e influências, no caso deles, em bandas de hardcore melódico como Noção de Nada, Reffer... até então, saudosista, eu tinha em mente que o hardcore havia "saído de moda", talvez pelo fato de bandas como Noção de Nada terem acabado, Dead Fish ter mudado um tanto... mas estava errado. Há uma "velha guarda" de qualidade.

Bom. falei tudo isso pra avisar que os rapazes do Propósito Nenhum postaram vídeos novos no youtube, que podem ser conferidos aqui e um deles logo abaixo. Aproveitem.


Por Zelenski, ao som de Mazzy Star.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A vez da voz e violão

Não sei se só eu estou sentindo isso, mas parece que o rock mogiano tirou uma pausa para descanso. O II Holliday Rock está chegando aos últimos shows, bandas acabaram e, com isso, algumas outras surgiram, porém, sem fazer o número de shows que as veteranas faziam, entre outros fatores...

Com isso tudo, está abrindo uma nova área da cena, até então pouco explorada: o show só com voz e violão. Diversas figuras do rock estão adeptas, agora, dessas apresentações, como o Régis, Erik e Alê (os três Somatas) e o Gui, ex-Motocontínuo e atual Padovani's Death, por exemplo. Quem tem aberto as portas para o som desse pessoal, principalmente, tem sido o bar Sambuca e o Campus VI (há uns meses rolava no Divina Comédia, com o DiQuinta).

E são apresentações diferentes das que se encontramos em barzinhos de MPB. Tenho absolutamente nada contra os artistas que possuem em seus repertórios Djavan, Elis, Chico, Vinícius e outros nomes da Música Popular Brasileira (seja lá o que isso signifique).

Mas, o que falo aqui é de alternatividade, e não de mais-do-mesmo ou apenas música ambiente. É muito bacana ir a um bar, com um clima legal, bebidas com preços acessíveis (e opções de drinques e rangos) e rolando um som voz e violão, com músicas do Radiohead, REM, Dinosaur Jr (certo, Régis? rs) e Jeff Buckley.

Régis, ontem, no Sambuca

A barulheira fica de lado. Mas a atitude é a mesma ainda.

Por Zelenski, ao som de Mew

terça-feira, 12 de maio de 2009

“Isso não aconteceu aqui em Mogi. Essa banda não existe!”

O post é grande. Mas vale muito, muito, muito à pena. É mais uma colaboração do nosso amigo Boê, do Seamus. O texto se trata do segundo capítulo do TCC dele, que foi um livro-reportagem sobre nada mais nada menos do que a banda La Carne. "Desconhece o Rumo, Mas Se Vai"

Vou copiar o que dizia o e-mail do Boê para mim: "Lembrei hoje que o segundo capítulo é todo dedicado ao show do La Carne no Lounge Beer em 2005, que foi do caralho. E que, no mesmo evento, foi o último show do Agentes. E teve Margaritas Ante-Porcus. E Forte Apache. E foi emblemático pra caralho. E foi por onde eu comecei meu TCC, na verdade. Tracei meus primeiros rabiscos naquele dia, sentado na praça de alimentação do shopping daí de Mogi."

E digo: é um texto foda. Reserve uns minutos para ler e reler.

Abraços!

*****

Dezessete de dezembro de 2005. O Lounge Beer, em Mogi das Cruzes, recebia seu último show naquele ano – e um dos últimos de sua existência. A cidade é saudada como um dos melhores lugares para uma banda do underground tocar no Estado de São Paulo. Lá existe um público altamente receptivo e caloroso, que frequenta os eventos exclusivamente pelas bandas; quando não as conhece, observa-as atentamente desde o momento em que empunham os instrumentos, colando no palco assim que os primeiros acordes surgem dos amplificadores.

Até 2004, a mística da cidade se fazia realidade nos shows na Chopperia Camelot, casa que ficava quase nos fundos do Hipermercado D'Avó. A opulência do hipermercado contrastava com o acanhado bar que, apesar de pequeno e do visual bem cuidado e discreto, comportava shows absolutamente lotados, em que o público quase sempre invadia o espaço reservado à banda [havia um tablado de 10 centímetros de altura como “palco”], às vezes até mesmo fazendo intervenções pertinentes, como recuperar palhetas que teimavam em cair das mãos de guitarristas e baixistas ou ajeitar pedestais de microfone. O clima intimista, somado ao calor dos mogianos, faz com que não raro se ouça de músicos que guardam com muito carinho as memórias “do show de Mogi, no Camelot”.

O caminho para o Lounge Beer, para quem desce na rodoviária, passa pela rua onde ficava a Chopperia Camelot. Em 2005, funciona no mesmo lugar o Vila Madalena, nome sintomático para um bar voltado à classe média. No som ambiente, MPB tradicional repetida a noite inteira. Mesas residem onde antes havia o tablado. Um espaço, agora, sem absolutamente nada de especial, natimorto pela insipidez de qualquer bar que se proponha ao velho esquema banquinho-e-violão. Mesmo assim, ao olhar para dentro do local, ainda é possível ouvir imaginariamente o barulho daquelas bandas tocando, sentir o calor saindo bar afora.

Dois quarteirões acima está o Lounge Beer. A fachada envidraçada faz com que quem está dentro consiga observar todo o movimento na entrada. Mais espaçoso que o Camelot, o Lounge possuía um palco bastante diferente do usual: a banda ficava disposta em linha, com a bateria num canto e os outros integrantes perfilados. Bonito para a platéia, mas um terror para os músicos: o guitarrista, que geralmente se instalava no outro canto da parede com um amplificador nas costas e uma caixa de som bem no seu ouvido direito, acabava não ouvindo a bateria em alguns momentos. Para o La Carne, que em dez anos de banda já havia encontrado de tudo em matéria de equipamento de palco, seria apenas um detalhe. Desta vez, ao menos haviam amplificadores bons à disposição – e, como sempre, o empenho do agitador Daniel Alcântara, organizador daquele evento [e da maioria dos shows em Mogi à época], e um dos principais responsáveis pela boa fama da cidade.

Além disso, o Lounge ainda oferecia cerveja boa a R$ 3,50 a garrafa; um preço humano, levando-se em conta que a maioria das casas de shows costumava vender latinhas e long necks por um preço igual ou ainda maior. Obviamente, isso muitas vezes acabava por animar demais os shows, mas havia muito tempo que uma briga não acontecia. Pelo contrário: as rodas de pogo que se abriam no público [herança direta dos shows punks] paravam de dançar até se a lente do óculos de um desajeitado míope caísse no chão da casa. E, naquela noite, aquele pedaço de acrílico voltaria intacto para o seu local de origem: a armação dos meus óculos. Era a velha camaradagem mogiana em ação.

As pouco mais de oitenta pessoas que compareceram àquela noite tentavam encher com seu entusiasmo todo o espaço vazio da casa. Logo após o início da primeira apresentação da noite, Margaritas Ante-Porcus, a chuva resolveu dar seu ar da graça na noite de Mogi, o que explica em parte o minguado público do show.

– Se tem que ficar explicando o que está fazendo, então é porque não está fazendo bem feito – solta um irônico Sidney Júnior, baterista do La Carne desde 2003, contrariado pelo discurso momentâneo do vocalista do Margaritas. O são-paulino Sidney estava visivelmente eufórico aquela noite, tanto pela expectativa do show quanto pela final do Mundial Interclubes que aconteceria na manhã daquele domingo, que seria entre seu clube do coração e o Liverpool, da Inglaterra.

A segunda banda a subir no palco, a mogiana Agentes, faria, sem saber, seu último show. Perderia no mês seguinte o baterista Fábio Uehara que, a exemplo de muitos descendentes de japoneses que nasceram na cidade, iria tentar a sorte do outro lado do mundo como dekassegui. Ao fim do show, uma mão me toca o braço e aponta o amplificador de guitarra no palco.

– Você sabia que esses amplificadores Marshall JCM 900 foram criados nos anos 80 e têm mais agudos e graves? Eu tive um 800, que tem um timbre mais rico em médios, mas era muito grande e não dava pra ficar carregando pra lá e pra cá...

Jorge é o mais quieto dos quatro, mas à medida que seu inseparável cantil esvazia, começa a puxar conversa. Em todos os ensaios, ele cuidadosamente separa um banco de madeira onde deixa uma pequena garrafa com whisky [“nacional, porque o importado é muito caro e eu raramente tenho grana pra isso”] e um copo, do qual vai bebericando durante as músicas. E ele, o cantil, estava cheio de Passport naquela noite. Talvez não tão cheio àquela altura...

Enquanto o Forte Apache, penúltima banda da noite, parecia querer demolir o bar com golpes maciços de guitarra, Sidney, Carlos e Jorge preparavam o equipamento para o show. Entravam e saíam do camarim no segundo andar, cuja janela dava para uma vista privilegiada da madrugada em Mogi, agora já sem chuva.

Descendo pela escada e passando entre os poucos que sobreviveram até aquela hora da noite para ouvir [mais] uma banda, era possível sentir o calor diferente do lugar. O La Carne sobe ao palco para montar seu equipamento, como sempre, sem nenhum traço de pompa. Jorge, sempre com uma expressão serena no rosto, calmamente pluga a guitarra e logo puxa uma frase improvisada, que é imediatamente capturada no ar pelo baixo de Carlos e a bateria de Sidney. Todos os presentes correm para a beira do palco. O show já começou.

Linari, usando uma camiseta da seleção de futebol da Bolívia, não demora muito para se juntar à sessão de improviso. O sorriso mezzo maquiavélico mezzo malandro, enquanto segura o microfone com o pedestal inclinado, é a sua marca registrada. Encara o público como se analisasse um a um os presentes. Depois, anuncia:

– Boa noite, nós somos o La Carne. Satisfação! – e, já com o ataque de Jorge nas seis cordas ecoando bar afora, anuncia – Esta música se chama “Demônio Triste”.

“Demônio Triste” e seu rítmo funkeado põe até o mais quieto dos presentes a dançar as histórias da periferia da Grande São Paulo, que Linari destila e encarna no visual e no jeito de cantar.

“Como vai, demônio triste?
Quer saber onde vai chegar?
Por enquanto eu tô tranquilo
Ainda bobo da corte [...]
Cotovelo no balcão
Uma pá de bituca no chão
Eu continuo sem saber se rezo ou saio sem pagar”

A iluminação vermelha ajuda a compor um cenário tórrido com a música, que faz parecer com que até as paredes estivessem suando. Não são mais do que quarenta ou cinquenta pessoas naquele instante em frente ao palco, mas todos ali dançavam – num êxtase que poucas bandas do underground conseguem causar sem usar truques fáceis.

Quase emendada, surge “Quem Aqui [Desgraça]”. Uma música com um inegável apelo pop e cuja melodia justifica a mais grossa das comparações ao grupo: um Ira! melhorado. É um dos “hits” do La Carne, e é cantada [ou melhor, berrada] por muitos na beira do palco, que se identificam como os “artistas pobres” que a letra homenageia e que nunca acharam respostas para as perguntas que ela faz.

“Quem aqui pode me dizer o quanto se morre pra poder viver?
Pensa que você pode ver quanta mentira consegue te convencer? [...]
Quem aqui que pode se lembrar da última vez que teve medo de chorar?
Quem sabe como é que se faz pra uma vontade se curvar?”

Os versos de Linari tornam-se, sem querer, um grito de guerra de todas as almas que ali o entoavam: adolescentes procurando o significado da vida às 4h da manhã num show de rock; músicos das outras bandas; gente que se sente acuada pelo mundo em que vive e que espera a primeira oportunidade para o revide. Os mesmos que evocam o ritmo da música seguinte, de título sintomático: “Desconhece O Rumo, Mas Se Vai”

O erro de português no título não é proposital, e exatamente por isso faz com que a música pareça ainda mais convincente. Os primeiros acordes de Jorge incendeiam o ambiente, as palmas crescem e marcam o ritmo e, à primeira rufada da bateria, a sensação é de redenção. O que vem a seguir é seguido por êxtase e um quase descontrole, com copos de cerveja voando no palco, gente dançando como se aquele fosse o evento de suas vidas. Mas era só mais um show de rock, no qual elas estavam expondo suas almas. Um dos poucos shows em que conseguiam a bênção da entrega de uma banda que toca com o coração. Ali, tão perto, o suor dos músicos no pequeno palco se confundindo com a platéia. Todos eles se vendo retratados como os “vira-latas” na letra daquela canção.

“Desconhece o rumo, mas se vai
Não importa o medo que isso traz
Deixa acontecer

Não me adoeça das mentiras de da cobiça
e do veneno que escorre da boca das víboras
Não me adoeça da competição escrota,
da compaixão e da caridade burguesa
A lógica do cash...

Vira-latas peregrinos
As bocas abertas, as línguas pingantes na estrada
Vira-latas sem destino
perambulando entre armadilhas dessa capital do capital”

Apesar de a figura de Linari comandar as atenções no palco – gordo, cabelos compridos e barbudo, com um alcance vocal altíssimo e o seu olhar intimidador – o guitarrista Jorge, por sua vez, é quem dá o tom definitivo. Jorge é o anti-guitar hero por excelência. Toca parado, sério, quase tímido, mas é só despejar seus acordes que chama a atenção com seu estilo marcante, pesado, mas sem qualquer efeito de distorção. Uma pegada rascante, como uma viola furiosa e eletrificada. Há um quê folk combinado a um balanço sangrento, com o qual ele é capaz de fazer guitarristas na platéia pensar em aposentadoria sem tocar um único solo. Combinado ao baixo ribombante de Carlinhos e o timming da batida de Sidney, ao vivo o La Carne causa comoção pelos palcos onde passa. É capaz de “tirar as muletas de um aleijado”, como definiu o jornalista Leonardo Vinhas sobre um show em São Paulo. Uma apresentação cuja atmosfera é capaz de comover o mais cético dos críticos musicais.

Dez músicas depois, com um megafone nas mãos, o vocalista do Agentes, Jefferson Martins, sobe ao palco ainda em meio aos urros da platéia e à discotecagem que começava a ecoar das caixas de som, e anuncia o fim do show:

– Isso não aconteceu aqui em Mogi. Essa banda não existe!

As pouco mais de cinquenta pessoas que resistiram ao cansaço e ao álcool saíam sorrindo satisfeitas daquela celebração. Elas que, à parte de todos os modismos, de todas as trapaças midiáticas, tinham todos os sonhos do mundo. E que ainda acreditavam na música pelo simples prazer de fazer música em meio a toda essa contradição. E dessa gente se compunha o tal “underground do underground” dos formadores de opinião¹.

***

Às seis da manhã, enquanto aquela manhã chuvosa começava a nascer em Mogi das Cruzes, as pessoas esperando o primeiro ônibus para suas casas, o São Paulo Futebol Clube prestes a derrotar o time da cidade da maior banda de rock de todos os tempos; bravos sobreviventes daquela madrugada se regojizavam sobre aquela noite. Ainda tinham energia para conversar sobre bandas, shows, e sobre como Mogi das Cruzes trazia sempre os melhores “rolês”. Eu, esgotado, apenas olhava o horizonte, sonhando acordado com uma cama ou mesmo o banco do ônibus, quando alguém me cutuca. Era Carol Doro, ativista do grupo de cultura marginal Sinfonia de Cães e baixista da banda paulistana Popstars Acid Killers. Como nós, ela esperava a condução de volta pra casa depois daquela madrugada. Quase inconformada, ela pergunta:

– Meu, você não se impressiona com esses caras?
– Quê caras? - eu indago, surpreso.
– La Carne, meu! Eles “chutam” muito!


¹ Referência ao capítulo 1, que não incluo aqui porque não vem ao caso. =)

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Versos seus, meus, nossos...
Carolina Diz, de BH, lança álbum Crônicas do Amanhecer, com história do dia-a-dia de todos


Carolina Diz, que acaba de lançar o álbum Crônicas do Amanhecer (Foto: tramavirtual.com.br/carolina_diz)

Lou Reed sabe das coisas. Aquele que prestou atenção em seus versos e melodias concorda. E quem tem mais certeza disso é Carolina Diz, banda de Belo Horizonte, que se inspirou na música Caroline Says II, de Lou Reed, para batizar o grupo. “Acho o Berlin (1973) um dos maiores discos criados no Rock'n Roll. Beira quase a perfeição. Definitivamente um dos discos mais deprês e mais belos do mundo”, diz César Gilcevi, baterista e compositor da banda.

Neste contexto de versos depressivos e belos do ex porém eterno Velvet Underground, Carolina Diz, formado também por Humberto Teixeira (vocal e guitarra), Dennis Rafael Martins (baixo) e Fernando Prates (guitarra), acaba de lançar o segundo álbum, “Crônicas do Amanhecer”, cujas canções possuem influências que ultrapassam o universo da música, atingindo também o universo das artes plásticas, literatura e do próprio cotidiano.

“Sempre li muito Drummond, Henry Miller, Ginsgerg, Roberto Piva, Rimbaud, Georg Trakl. O Dennis sempre foi muito ligado à cultura de quadrinhos. Adicione à isso coisas como Bob Dylan, Crazy Horse e a carga de guitar bands como Sonic Youth, Afghan Whigs, Pixies, trazidos pelo Humberto e pelo Fernando e você tem um disco como Crônicas do Amanhecer”, detalha Gilcevi.

Ao se escutar este álbum, logo se percebe uma grande aproximação com o dia-a-dia de qualquer um envolvido com o cenário urbano e o caos e romantismo da cidade grande, lembrando que as histórias do disco se passe por BH. “Menos do que crônicas, talvez minhas letras sejam apenas relatos concisos sobre situações e cenas do dia-a-dia e das pessoas que nos cercam”, diz o baterista.

Quer sentir tudo isso que foi dito? Basta atentar aos versos de “Mariana”, de “Crônicas do Amanhecer”, como: “lhes apresento Mariana/ nascida há 25 Natais/ Tirou da mão esquerda uma aliança/ e dos ombros um peso a mais/ Filha de Maria e Vicente/ mãe de Lúcia, ex-mulher de José/ escorre na pia um sono insistente/ e às seis já preparou o café”. César diz: “Meus temas são os de qualquer criador, acho: amor, ódio, desespero, redenção, dor, paixão, vida, morte. Não há ser humano que seja imune a esses sentimentos”.

A banda lançou em 2003 o primeiro álbum, “Se Perder”, que encarou um momento conturbado do Carolina Diz. “A diferença básica é o certo amadurecimento, respeito e solução das nossas diferenças e convivência maior da banda. Se Perder foi um momento de caos e até as gravações foram desleixadas”, explica o músico.

Versos do cotidiano, medos, amores, vontades, sonhos, nós mesmos em palavras e melodias. Não sai do lugar-comum dos temas poéticos, mas, tampouco é repetitivo ou igual a algo já criado. Assim, escute Carolina Diz (gravação feita para o programa Alto Falante).

Carolina Diz - Mariana [SAF 01/2008]


Por Zelenski, ao som de Lou Reed, Walk on the Wild Side.